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Durante três meses, eu tive uma inimiga.

Marina · 10 de agosto de 2026 · 2 min de leitura

Ela não sabia, mas tinha.

Todo dia, mais ou menos às sete da manhã, alguém estacionava um carro exatamente na frente da minha garagem.

Não bloqueava completamente. Esse era o problema.

Se bloqueasse, eu poderia reclamar.

A pessoa deixava aquele espacinho matematicamente calculado para o meu carro passar com aproximadamente dois centímetros de cada lado.

Todo santo dia eu saía de casa fazendo quinze manobras.

E xingando.

“Essa mulher não trabalha?”

“Não tem uma garagem na casa dela?”

“É provocação.”

Eu tinha certeza de que era uma mulher porque algumas vezes vi uma bolsa no banco do passageiro.

Minha inimiga já tinha rosto, personalidade e defeitos, embora eu nunca tivesse visto a criatura.

Até que um dia resolvi esperar.

Sete e dez, o carro apareceu.

Fiquei olhando pela janela.

O motorista desceu.

Era um senhor de uns setenta anos.

Ele abriu a porta do passageiro e ajudou uma senhora a sair.

Ela caminhava com muita dificuldade.

Os dois entraram na casa em frente.

Uns quarenta minutos depois, voltaram.

Foi quando minha vizinha me explicou.

A senhora fazia fisioterapia ali três vezes por semana. O marido parava naquele lugar porque era o ponto onde ela precisava andar menos.

Minha inimiga não existia.

A bolsa era da esposa.

E o velho que eu tinha xingado mentalmente durante três meses estava só tentando fazer a mulher andar alguns metros a menos.

Fiquei com tanta vergonha que, na semana seguinte, quando vi o carro, fui até o portão.

Ele imediatamente perguntou:

“Estou atrapalhando?”

Eu respondi:

“Não. Pode deixar aí.”

Hoje, quando vejo aquele carro chegando, já sei que vou precisar fazer minhas quinze manobras.

Continuo achando um saco.

A diferença é que agora faço calada.

Resolvi contar essa história porque descobri que a gente consegue construir uma pessoa inteira dentro da nossa cabeça com meia dúzia de informações.

Eu inventei uma mulher.

Dei uma personalidade para ela.

Fiquei com raiva dela.

E ela nunca existiu.

Desde então, quando começo a ter certeza demais sobre alguém que eu mal conheço, lembro da bolsa no banco do passageiro.