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Eu demorei muito para entender que estava cansada.

Clara · 06 de agosto de 2026 · 2 min de leitura

Na verdade, eu nem sabia que aquilo tinha nome.

Achava que era uma fase.

Que passaria quando as coisas se organizassem.

E as coisas nunca se organizavam.

Todo dia eu acordava pensando na lista de tarefas antes mesmo de abrir os olhos.

Era o trabalho.

A casa.

Os filhos.

As contas.

As mensagens que eu ainda não tinha respondido.

Os favores que eu tinha prometido.

Eu dava conta de tudo.

Pelo menos era isso que todo mundo dizia.

“Você é muito forte.”

Durante muito tempo, achei que aquilo fosse um elogio.

Até perceber que ninguém perguntava como eu estava.

Perguntavam apenas se eu conseguiria resolver mais alguma coisa.

E eu sempre dizia que sim.

Porque eu também acreditava que precisava dar conta.

Um dia, minha filha me perguntou qual era a minha comida preferida.

Eu fiquei em silêncio.

Eu realmente não lembrava.

Ela perguntou qual era a minha música preferida.

Também não soube responder.

Naquele momento percebi que fazia anos que eu escolhia tudo pensando nos outros.

O restaurante.

O filme.

A viagem.

O horário.

Até o meu tempo.

Tudo era para alguém.

Nada era para mim.

Naquela noite chorei.

Não porque alguma coisa muito grave tivesse acontecido.

Mas porque descobri que eu já não sabia mais quem eu era.

Eu continuava vivendo.

Mas parecia que tinha deixado de existir dentro da minha própria vida.

Alguns dias depois comecei a escrever.

Sem técnica.

Sem saber escrever bonito.

Escrevia apenas o que vinha.

No começo era raiva.

Depois vieram as culpas.

Vieram os medos.

Vieram lembranças que eu nem imaginava que ainda estavam guardadas.

E, pela primeira vez em muitos anos, eu comecei a conversar comigo.

Não encontrei respostas.

Mas encontrei perguntas que nunca tinha tido coragem de fazer.

Talvez seja isso que a escrita tenha feito por mim.

Ela não mudou a minha vida de um dia para o outro.

Mas me devolveu uma pessoa que eu tinha perdido pelo caminho.

Eu mesma.