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Eu parei de estudar muito cedo.

Fui com medo mesmo · 12 de agosto de 2026 · 2 min de leitura

Eu parei de estudar muito cedo.

Não porque eu quis.

Minha mãe criou quatro filhos praticamente sozinha e chegou uma hora em que eu precisava trabalhar. Na época achei normal. Muita gente que eu conhecia vivia do mesmo jeito.

Comecei trabalhando em casa de família. Depois fui para uma loja. Trabalhei em mercado, padaria e por último fiquei muitos anos numa empresa de limpeza.

Nunca tive vergonha do meu trabalho.

O que eu tinha era vergonha de dizer que não tinha terminado os estudos.

Quando precisava preencher alguma ficha e aparecia “escolaridade”, aquilo me incomodava. Eu sempre pensava:

“Um dia eu termino.”

Esse um dia demorou quase trinta anos.

Foi minha irmã que descobriu que tinha EJA perto da minha casa.

Eu ri quando ela falou.

Disse:

— Tá maluca? Vou estudar nessa idade?

Ela respondeu:

— E qual é a idade certa?

Me matriculei mais para ela parar de falar no meu ouvido.

No primeiro dia quase voltei para casa antes de entrar.

Achei que só teria gente nova.

Achei que eu não ia acompanhar.

E principalmente achei que iam rir de mim. Não aconteceu nada disso.

Tinha gente mais nova, gente da minha idade e até mais velha. No começo foi difícil. Matemática então, misericórdia.

Tinha dia que eu olhava para aquelas contas e pensava: “Eu não tenho necessidade nenhuma de estar passando por isso.” Mas no dia seguinte estava lá de novo. Quando terminei o ensino médio, meus filhos fizeram uma surpresa para mim. Compraram flores, tiraram foto, fizeram a maior festa. Eu fiquei com vergonha daquela confusão toda.

Mas gostei.

Gostei muito.

Agora estou fazendo um curso técnico.

Não sei até onde vou.

Também não tenho aquela história de que “venci na vida” porque voltei a estudar. Continuo trabalhando, continuo pagando conta, continuo tendo problema igual todo mundo. A diferença é que parei de pensar que certas coisas não eram mais para mim.

Hoje, quando alguém fala que está velho para começar alguma coisa, eu lembro de mim entrando naquela sala com 51 anos.

O medo foi comigo.

A vergonha também.

Ainda bem que eu entrei mesmo assim.