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Eu quero chegar aos 90 anos cantando nos Karaokês da vida

Maria da Glória · 11 de agosto de 2026 · 12 min de leitura

As pessoas às vezes acham que criança não tem memória, mas tem.

Eu me lembro de quando tinha seis anos. Era uma criança como qualquer outra, gostava muito de brincar com minhas bonecas. Elas eram minhas filhas. Eu dava comidinha, dava banho naquelas banheirinhas pequenas de plástico que existiam antigamente, trocava as roupinhas. Tinha também uma cozinha de brinquedo que ganhei do meu padrinho Sebastião, que todo mundo chamava de Tão.Meu padrinho era muito engraçado. Doido varrido. Até aí, tudo era maravilhoso. Foi nessa idade que fiquei muito doente. Tive uma encefalite por vírus e fiquei 23 dias sem falar. Meu corpo ficou todo duro, parecia um robô. Fiquei paralisada do pescoço para baixo e só conseguia mexer a cabeça. Eu me lembro de estar deitada no quarto e ver minha mãe e meus irmãos entrando e saindo. Meu pai apareceu algumas vezes. Ele devia estar fora de casa mais uma vez, porque meu pai foi embora muitas vezes. Mamãe dizia que foram sete. Quem também estava sempre por perto era meu padrinho Tão. Ele era como um pai para mim. Como eu não conseguia andar, ele me pegava no colo e ia com mamãe às consultas. Quando não era ele, ia minha madrinha, dona Abigail. Minha mãe desconfiava que alguma coisa relacionada à minha doença estava na minha boca. Houve uma junta médica em que vários médicos falavam ao mesmo tempo e mamãe tomou a palavra e contou o que estava percebendo. Enquanto ela falava, um acadêmico, atrás dos médicos, fez um sinal com o polegar mostrando que ela estava certa. Depois indicaram para mamãe um médico no Méier, o doutor Matos Filho. Foi ele, abaixo de Deus, que me curou. Mas existe uma lembrança daquela época que nunca saiu de mim. Eu estava deitada na cama, no apartamento onde morávamos no Cabuçu. Da cama dava para ver a janela e naquela noite havia uma lua linda no céu. Sandra, nossa irmã de leite, estava comigo e começou a repetir:

“Dindinha, lua.”

Ela falava perto de mim:

“Dindinha, lua. Dindinha, lua.”

Repetiu várias vezes.

Até que, de repente, eu comecei a falar.

Falei tanto e tão repetidamente que até ela se assustou.

Depois de 23 dias, minha voz tinha voltado.

Eu nunca esqueci aquela lua.

Depois que fiquei boa, minha mãe passou a ter ainda mais cuidado comigo. E meus irmãos também.

Era bom e não era ao mesmo tempo.

Eu sabia que era cuidado, mas havia muitas coisas que eu não podia fazer. Sair com alguém, ir ao cinema, ir a um parque, tudo era difícil.

Uma vez, seu Laerte, nosso vizinho, insistiu tanto com mamãe que conseguiu me levar à matinê de um cinema antigo que existia na Rua Cabuçu. Fomos ele, o filho dele, Guilherme, e eu. Depois do cinema, paramos numa sorveteria, tomamos bastante sorvete e ainda fomos ao parquinho.

Fomos e voltamos a pé porque era tudo perto.

Só assim se saía de casa.

Guilherme, Marcelo e Ricardo, filhos dos nossos vizinhos, foram meus primeiros amigos fora da escola. Crescemos juntos.

Minha mãe era uma mulher rígida, mas me ensinou coisas que carrego até hoje. Uma delas foi respeitar os outros. Outra foi saber esperar.

E esperar exige paciência.

Ela dizia, por exemplo:

“Vamos à casa da sua tia. Chegando lá, ela sempre tem bolo na mesa. Espera ela perguntar se você quer um pedaço. Se quiser, pode dizer que sim. Mas não peça antes de ela oferecer, porque isso é falta de educação.”

Ela não precisava falar gritando.

Olhava dentro dos nossos olhos e pronto.

Minha relação com meus irmãos era boa. Eu era a criança da casa e vivia no meu mundo de criança.

Lia me levava e buscava na escola. Luiz foi quem me ensinou a ver as horas. Na escola ensinavam, mas eu não conseguia entender e achava que nunca aprenderia.

Um dia Luiz falou:

“Vou te ensinar a ver as horas.”

Desenhou um relógio e foi me explicando os minutos, os segundos, tudo com a maior paciência.

Naquela época aquilo era difícil pra caramba.

Depois que a gente aprende, não sei explicar, dá uma felicidade. Aquilo que parecia coisa de outro mundo fica simples.

Vanilda era quem me dava presentes. Ganhei as bonecas da época, Amiguinha, Beijoca, Sininho, bichinhos de pelúcia. Glória me dava roupas porque trabalhava na cidade, numa loja chamada Casas Bark, que já não existe há muitos anos. Beto, Jorge, Hélio e Marli também me davam lembrancinhas.

Ser criança numa casa cheia de irmãos mais velhos tinha suas vantagens.

E tinha meu padrinho Tão.

Uma das lembranças mais engraçadas da minha infância foi por causa dele.

Ele ia lá para casa e, como era muito palhaço e atentado, não deixava ninguém assistir televisão. Ficava na frente da TV dizendo que ele era mais bonito que os artistas.

Um dia mamãe perdeu a paciência e trancou meu padrinho no quarto.

De repente ficou aquele silêncio.

Eu pensando no que ele estaria fazendo.

Mamãe falou:

“Ele sossegou.”

A janela da sala estava aberta e, de repente, ele apareceu do lado de fora.

Todo mundo levou um susto.

Ele tinha saído pela janela do quarto e vindo andando pelo parapeito estreitinho do prédio até chegar à janela da sala.

Mamãe falou:

“Tá maluco? Quer matar a gente do coração?”

E ele respondeu:

“Comadre, você me trancou no quarto. Eu tinha que sair.”

Pulou para dentro da sala e a perturbação continuou.

E eu ria sem parar.

Tenho saudades dele.

O tempo foi passando e eu cresci.

Comecei a trabalhar aos 22 anos. Meu primeiro e único emprego foi na Prefeitura do Rio de Janeiro, como servente de escola.

Meu primeiro dia foi tranquilo. Primeiro me explicaram o que eu precisava fazer e depois comecei.

Mas trabalhar representou muito mais para mim.

Foi quando comecei a ir e voltar sozinha que percebi uma força diferente dentro de mim.

Mamãe ainda não estava doente, mas eu já conseguia fazer meu caminho sozinha. Trabalhava pela manhã e comecei a ter minha autonomia.

Pode parecer bobagem para algumas pessoas, mas não é.

A gente começa a se sentir responsável por si mesma. Se sente poderosa. Parece que uma mulher cresce dentro da gente e diz que agora nós temos que dar conta do recado.

E as pessoas também começam a olhar para você de outro jeito.

Quando eu era jovem, sonhava em poder fazer coisas simples. Ir aos lugares, passear bastante pelo Rio de Janeiro e ter dinheiro no bolso, porque dinheiro no bolso não faz mal a ninguém.

Quando se é jovem, a gente sonha muitas coisas.

Depois conheci José Isidoro, o pai do meu filho. Quando descobri que estava grávida, não vou dizer que foi ruim porque não foi. Mas pensei:

“E agora, como vou fazer?”

A primeira pessoa para quem contei foi o pai. O restante da família ainda não sabia.

Eu trabalhava e meu serviço não era fácil para uma mulher grávida. Eu e José Isidoro começamos a procurar uma casa porque a ideia era casar.

Eu sempre fui gordinha, então consegui esconder a gravidez por um bom tempo.

Só que minha pressão começou a subir.

Quase todos os dias, depois do trabalho, eu ia ao Hospital Carmela Dutra verificar a pressão. Até que um belo dia cheguei em casa e minha irmã Glória veio atrás de mim. Eu estava na cozinha fazendo comida quando ela perguntou:

“Você está grávida?”

Respondi:

“Sim, estou grávida. Estou com pressão alta e já estou fazendo tratamento no Carmela Dutra.”

Ela ficou muito brava.

“Você não ia contar para ninguém que está grávida?”

Eu respondi:

“Você está vendo o jeito que ficou quando soube? Você não veio conversar comigo, veio me cobrar. Eu tenho 32 anos e não sou mais nenhuma criança.”

Aí ela abaixou o tom.

Mas antes de Felipe nascer aconteceu uma coisa que eu nunca esqueci.

Eu estava passando mal por causa da pressão e falei isso para o pai dele. Nós estávamos na rua e ele tinha acabado de receber o pagamento.

Ele tirou o dinheiro do bolso, colocou na minha mão e disse:

“Toma esse dinheiro e vai resolver sua vida.”

No primeiro momento não entendi.

Perguntei:

“Que dinheiro é esse? Eu não quero dinheiro. O que é isso?”

Então ele disse que, já que eu vivia indo ao hospital e passando mal, eu poderia “ficar livre daquela situação”.

Eu perguntei:

“Você não está me dizendo o que eu estou pensando?”

E ele confirmou.

Naquele momento eu disse:

“Você é um verdadeiro canalha. Esse filho não é só meu, é seu também.”

Ele respondeu que eu vivia dizendo que estava passando mal e que deveria me resolver.

Peguei o dinheiro.

Esperei um ônibus que vinha passando bem rápido e joguei tudo para o alto.

Ele ficou desesperado.

“Sua maluca! Esse é meu pagamento do mês! O que você fez?”

E eu tive muita frieza para responder:

“Você não falou para eu me resolver? Já resolvi. Está tudo certo agora.”

Dei as costas e fui embora.

Hoje eu sei que não ter casado com ele foi uma das decisões mais certas da minha vida. Com oito meses de gravidez nasceu Felipe. O maior presente que Deus me deu.

Criar um filho sozinha não é para qualquer um. É difícil porque tudo depende de responsabilidade e uma coisa vai puxando a outra. A maior dificuldade era trabalhar e cuidar dele. Mas também tive ajuda.

Na Prefeitura tive licença-maternidade e licença para amamentação e consegui ficar aproximadamente oito meses em casa. Depois que voltei a trabalhar, minha irmã ficava com Felipe até a metade do dia. Quando eu chegava, pegava meu filho e ficava com ele. Isso aconteceu até ele completar dois anos. Depois coloquei Felipe na mesma escola em que eu trabalhava. E deu tudo certo.

Nunca houve um momento em que eu pensasse que não conseguiria continuar.

Eu olhava para meu filho e pensava:

“Essa criança depende de mim. Saiu de mim. Foi Deus que me deu e Ele vai me dar forças para continuar.”

Era como se Deus já tivesse me avisado:

“Não vai ser fácil, mas estou contigo. Não desanima. Você consegue. Não desista. Cuida do seu filho.”

Então eu continuei.

Minha mãe e meus irmãos estiveram comigo nos momentos difíceis.

Eu ganhava pouco e me lembro de uma vez em que queria dar um Velotrol de aniversário para Felipe. Era caro naquela época e precisei parcelar em muitas vezes.

Pode parecer uma coisa pequena, mas era o que eu podia fazer. E fiz.

Hoje ele é um homem formado e trabalhador.

Um dos momentos de maior orgulho da minha vida foi a formatura dele em Contabilidade. Eu sabia de tudo o que ele tinha passado para chegar até ali e vi meu filho alcançar o objetivo dele.

Tenho orgulho até hoje.

Também tenho orgulho de mim.

Se eu pudesse encontrar hoje a Maria da Glória de 20 anos, acho que olharia para ela e diria:

“Foi a gente mesma que passou por tudo isso? Camarada, então nós estamos bem na fita.” Porque às vezes eu também não sei de onde veio tanta força.

Tem coisa que, quando a gente olha para trás, parece até mentira.

Mas sobrevivemos.

Não mudaria nenhuma decisão da minha vida. Quando preciso decidir alguma coisa, penso e repenso antes. Por isso faria tudo novamente. Tive dores.

Uma delas foi descobrir, grávida, quem realmente era o homem com quem eu quase me casei.

A outra foi perder minha mãe.

Apesar de mamãe ser uma mulher muito rígida, nós nos dávamos bem.

A morte dela ficou marcada em mim.

O tempo se incumbe de amenizar a dor. Ela diminui, mas não desaparece.

Só quem passa sabe.

Mas também tive muitas alegrias.

Trabalhar, poder ter meu dinheiro e não depender dos outros foi uma delas.

Meu filho é outra.

Talvez por isso eu tenha tanto orgulho da minha história.

Porque passei por coisas que nem sei explicar como consegui atravessar.

Nada foi fácil.

Ainda mais sendo mulher, tendo filho, trabalhando e muitas vezes precisando não demonstrar tudo o que estava sentindo para que meu filho não ficasse triste ou abatido.

Aprendi a tirar força de onde parece que não tem.

Aprendi a seguir em frente sem precisar atropelar ninguém.

E rezar muito.

Quando tive meu filho percebi que era mais forte do que imaginava. Eu sabia que tinha ajuda, mas também sabia que a palavra final, o sim ou o não, era minha.

Hoje meu coração está em paz.

Quando me perguntam se em algum momento eu me perdi de mim mesma, eu digo que nem tive tempo.

O corre-corre da vida só fez eu me achar.

Também não acho que tenha carregado grandes silêncios. Se tenho alguma coisa para dizer a alguém, prefiro falar. A oportunidade passa e depois pode não voltar.

Se existe alguma parte da minha história que eu não gostaria que fosse esquecida, é a minha própria vida.

Meu nome é Maria da Glória da Costa Silva.

Tenho 67 anos.

Sou solteira.

Sou uma mulher que viveu tudo o que pôde viver do seu jeitinho de ser e que continua dizendo que não se arrepende do que fez.

Não acho que tenha causado danos na vida de ninguém. Se não pude ajudar, pelo menos espero não ter atrapalhado.

E ainda tenho planos.

Quero chegar aos 90 anos.

Se Deus permitir, lúcida.

E cantando nos karaokês da vida.