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Me marcou ouvir minha mãe dizer...

Raquel · 16 de agosto de 2026 · 4 min de leitura

Eu devia ter uns seis ou sete anos quando isso aconteceu. Não lembro de muita coisa dessa época, na verdade. Tenho algumas lembranças soltas, algumas cenas que ficaram na minha cabeça, e essa é uma delas.

Minha mãe tinha uma vizinha que tinha uma filha, e essa filha também tinha uma menina pequena. Eu era um pouco mais velha que ela e às vezes a gente brincava juntas. De vez em quando eu saía com elas, ia para algum lugar perto de casa, para a área de lazer, essas coisas. Não lembro de ter acontecido muitas vezes, até porque eu era muito pequena.

Uma vez eu fui com elas andar de bicicleta num parquinho perto de casa. E, por algum motivo que eu não sei até hoje, eu desmaiei.

Eu lembro de ter visto tudo branco, de ter ficado muito branca também, mas não lembro direito do que aconteceu depois. Minha lembrança já é praticamente de voltar para casa e da minha mãe desesperada com o que tinha acontecido.

Depois passou.

Mas teve uma outra situação com esses mesmos vizinhos que ficou muito mais marcada na minha cabeça.

Um dia me chamaram para ir com eles à casa de alguém. Eu não faço a menor ideia de quem era essa pessoa, nem lembro direito do lugar. Só lembro que, quando chegamos lá, estava acontecendo alguma coisa do lado de fora da casa, parecia algum tipo de festa ou ritual.

Mandaram as crianças ficarem dentro de casa.

Só que criança é curiosa, né? Então a gente ficava tentando olhar para ver o que estava acontecendo lá fora.

Eu lembro de gente dançando, lembro de alguma coisa parecida com umas saias e lembro de ter ouvido alguém falar em “macumba”. Quem falou, eu não sei. Só sei que ouvi aquilo e guardei.

Quando cheguei em casa, minha mãe perguntou como tinha sido e eu contei. Falei mais ou menos assim:

“Acho que era uma macumba, alguma coisa assim.”

Eu era uma criança. Estava contando o que eu tinha entendido do que tinha visto e ouvido.

Minha mãe foi falar com os vizinhos para saber onde tinham me levado. E aí um deles disse que era mentira. Que não tinha macumba nenhuma, que eu estava mentindo.

Só que eu não estava mentindo.

E eu lembro do quanto aquilo me deixou mal. Porque eu nunca fui uma criança de ficar inventando mentira, principalmente para a minha mãe.

Em algum momento, esse vizinho quis que eu fosse até a casa dele falar na frente dele se era aquilo mesmo que eu estava dizendo.

E eu fui.

Eu tinha seis, sete anos e fui lá. Falei que sim, que era aquilo que eu tinha visto, que era aquilo que eu tinha ouvido. Eu banquei o que eu tinha falado.

Só que eu fiquei muito constrangida com tudo aquilo. Fiquei com vergonha, fiquei triste. Lembro de estar no quarto chorando porque estavam dizendo que eu tinha mentido e eu sabia que não tinha.

E aí tem uma parte dessa história que eu lembro até hoje.

Eu estava no quarto e ouvi minha mãe conversando com a minha tia. Ela estava contando que tinham falado que eu estava mentindo e disse alguma coisa mais ou menos assim:

“Mas por que ela ia mentir? Ela não mentiu. Eu conheço a minha filha.”

Isso ficou na minha cabeça.

Eu estava chorando, estava chateada com tudo aquilo, mas ao mesmo tempo foi muito importante ouvir minha mãe dizendo que acreditava em mim.

Hoje eu penso naquela menina pequena tendo que ir na casa de um adulto sustentar o que tinha falado. Eu fui. Mesmo constrangida, mesmo sendo criança, eu fui lá e falei.

Não sei por que lembrei disso agora. Também não sei exatamente o que essa história deixou em mim.

Mas eu sei que ser chamada de mentirosa quando eu estava falando a verdade me marcou.

E também me marcou ouvir minha mãe dizer que confiava em mim.

No meio de uma lembrança ruim, é isso que ficou muito forte para mim:

“Eu conheço a minha filha.”