Minha mãe demorou muito para aprender a usar WhatsApp
Marcos · 10 de agosto de 2026 · 2 min de leitura
Quando aprendeu, nós percebemos que talvez fosse melhor ela não ter aprendido.
No primeiro mês, ela descobriu o áudio.
Foi o começo do fim.
Minha mãe não manda mensagem.
Minha mãe produz podcast.
Você abre e está escrito:
8:47.
E começa:
“Minha filha, não precisa ouvir agora não…”
O que é mentira, porque se você não responde em dez minutos ela manda:
“Ouviu?”
Depois descobriu o grupo da família.
Criou um.
Colocou filhos, netos, noras, genros, duas primas, uma vizinha e uma mulher chamada Sônia que ninguém sabia quem era.
Perguntamos quem era Sônia.
Ela respondeu:
“Não sei. Mas já está aí, deixa.”
Sônia permaneceu seis meses acompanhando aniversários, brigas, receitas e resultados de exames de uma família que não era a dela.
Até que um dia escreveu:
“Gente, acho que vocês me adicionaram por engano.”
Minha mãe respondeu:
“Mas agora já conhece todo mundo.”
E Sônia ficou.
Só que o auge aconteceu quando minha mãe aprendeu a encaminhar mensagens.
Tudo passou a ser urgente.
“ATENÇÃO!”
“REPASSEM!”
“ACABEI DE RECEBER!”
Um dia ela mandou uma notícia dizendo que determinado alimento fazia muito mal.
Meu irmão respondeu:
“Mãe, isso é mentira.”
Ela perguntou:
“Como você sabe?”
“Porque a notícia é de 2013.”
Ela ficou alguns minutos sem responder.
Depois escreveu:
“Mas o alimento continua existindo.”
Ninguém conseguiu argumentar.
Hoje minha mãe domina o WhatsApp.
Manda figurinha.
Faz chamada de vídeo.
Apaga mensagem.
Tira pessoa do grupo quando fica irritada e coloca novamente dois dias depois como se nada tivesse acontecido.
E Sônia continua lá.
Já faz quatro anos.
No último Natal, inclusive, ela foi à nossa confraternização.
Às vezes penso que a tecnologia não aproximou apenas quem estava longe.
No caso da minha família, ela trouxe uma pessoa completamente desconhecida e transformou em parente.
Minha mãe ainda não sabe direito quem adicionou Sônia.
Mas agora ninguém mais tem coragem de perguntar.
Sua vez
Se esta história tocou alguma coisa em você, talvez seja o começo da sua.