Nem sei que título por
Anônimo · 10 de agosto de 2026 · 2 min de leitura
Eu cresci numa casa cheia de gente.
Éramos cinco irmãos, mas, por algum motivo que nunca consegui explicar, eu sempre me senti o que estava sobrando.
Meu pai batia muito em mim.
Às vezes eu nem entendia direito o que tinha feito. Só aprendi que, quando ele perguntava alguma coisa, a verdade nem sempre era a resposta mais segura.
Então comecei a mentir.
Primeiro, para não apanhar.
Depois, para conseguir sair de casa.
Depois, para esconder onde eu estava, com quem estava, o que tinha feito.
Quando percebi, eu já nem precisava estar com medo para mentir.
Saí de casa muito novo.
Aprendi a me virar sozinho, trabalhar, conseguir dinheiro. Quando podia, voltava e entregava alguma coisa para minha mãe.
Mas nunca voltava de verdade.
Sempre existiu uma distância entre mim e a minha família.
Durante muitos anos carreguei uma dúvida que nunca tive coragem de perguntar: eu desconfiava que aquele homem talvez não fosse meu pai.
Não sei se isso era verdade.
Talvez eu nunca saiba.
O problema é que cresci.
E algumas coisas cresceram comigo.
Tive mulheres que gostaram de mim e traí.
Prometi coisas que não cumpri.
Fui embora quando deveria ter ficado.
Tive filhos tentando construir uma família, mas nunca consegui permanecer tempo suficiente dentro de nenhuma.
Minha vida virou uma coleção de histórias mal resolvidas. Quando uma mentira começava a aparecer, eu inventava outra.
Depois outra. E mais outra.
Até chegar num ponto em que eu mesmo já não sabia mais o que estava tentando esconder. Hoje percebo uma coisa que me incomoda: o menino que mentia para sobreviver cresceu, mas continua mentindo como se ainda precisasse se proteger de alguma coisa.
Talvez seja por isso que resolvi escrever aqui.
Não para justificar o homem que me tornei. Existem pessoas que machuquei e escolhas pelas quais sou responsável.
Escrevo porque comecei a me perguntar em que momento aquilo que me ajudou a sobreviver passou a me impedir de viver.
E porque, pela primeira vez, eu gostaria de contar uma história sem precisar inventar nenhuma parte dela.
Sua vez
Se esta história tocou alguma coisa em você, talvez seja o começo da sua.