Nem todo mundo é nosso amigo.
Helena · 16 de agosto de 2026 · 5 min de leitura
Eu ouvi uma frase naquele período que ficou muito marcada em mim: “Nem todo mundo é nosso amigo.”
E eu concordo. Nem todo mundo é nosso amigo mesmo.
Eu não sou inocente a ponto de achar que todo mundo gosta de mim, que todo mundo quer o meu bem ou que ninguém é capaz de prejudicar ninguém. Só que eu também não sei viver olhando para as pessoas o tempo inteiro e pensando: “Será que essa pessoa está querendo me ferrar?”
Eu não funciono assim.
Talvez por isso tenha sido tão difícil entender o que estava acontecendo comigo.
Porque chegou um momento em que eu comecei a questionar não só aquelas pessoas, mas a mim mesma.
Será que eu estava errada por não querer ser conivente com determinadas coisas? Será que eu estava errada por me posicionar? Será que não querer ser manipulada era um problema? Será que pedir explicações era errado? Será que, para continuar ali, eu precisava aprender a baixar a cabeça?
Eu realmente comecei a questionar os meus próprios valores.
E isso, para mim, foi uma das coisas mais violentas de todo aquele processo.
Porque eu nunca achei que as pessoas precisassem pensar como eu. Muito pelo contrário. Quando eu falo de posicionamento, eu não estou falando de se posicionar como eu me posicionaria. Estou falando de conseguir se posicionar de acordo com aquilo que você é.
É saber quem você é, onde você está, o que você acredita, o que você busca e quais são os seus limites.
E não ceder.
Não por teimosia. Não para bater de frente por bater. Mas porque existem coisas das quais, se você abrir mão, começa a abrir mão de você também.
Para mim, liderança sempre teve alguma coisa a ver com isso.
Liderar nunca foi simplesmente ocupar uma cadeira e cumprir uma ordem. Liderança, para mim, é pensar. É questionar. É conseguir olhar para alguma coisa e perguntar: “Por quê?”. É ter responsabilidade pelas próprias decisões. É conseguir discordar. É também ser exemplo.
Só que, naquele lugar, comecei a perceber que justamente essas características estavam se tornando um problema.
Eu perguntava.
Eu queria entender.
Eu pedia explicações.
Eu não aceitava determinadas situações simplesmente porque alguém hierarquicamente acima de mim tinha decidido que seria daquele jeito.
E não era uma rebeldia contra ordem. Eu sabia que trabalhava em uma empresa e que existia hierarquia. O problema nunca foi esse.
O problema era quando a ordem vinha acompanhada de dedo na cara, de desrespeito, de contradições, de coisas que não faziam sentido e sobre as quais parecia que eu sequer tinha o direito de perguntar.
Foi aí que eu ouvi que não havia mais espaço de liderança para mim naquele lugar.
E aquilo me atravessou de uma maneira que eu não consigo explicar completamente.
Porque eu já vinha percebendo algumas coisas. Já sentia que alguma coisa estava acontecendo. Só que existe uma diferença enorme entre desconfiar e ter a confirmação.
Quando a minha própria líder me confirmou que existia um movimento para me tirar daquela cadeira, o meu mundo desabou.
Desabou mesmo.
Porque uma coisa é você imaginar. Outra coisa é alguém chegar e confirmar aquilo que você estava tentando não acreditar.
E talvez uma das coisas mais difíceis tenha sido perceber que aquilo que eu considerava qualidade em mim estava sendo usado para justificar por que eu não servia mais para aquele lugar.
Eu pensava demais.
Eu questionava.
Eu batia de frente.
Eu atrapalhava.
Mas atrapalhava o quê?
Essa pergunta ficou comigo.
Porque eu trabalhava. Eu gostava do que fazia. Eu levava aquilo a sério. Eu acreditava no meu trabalho. Eu tinha construído uma carreira inteira dentro de banco. Então como é que, de repente, pensar passou a ser um problema?
Talvez esperassem de mim outra coisa.
Talvez esperassem alguém que simplesmente concordasse, executasse e não perguntasse.
Mas eu não conseguia ser essa pessoa.
E foi aí que começou uma briga muito maior dentro de mim. Porque eu comecei a pensar: será que eu preciso me adequar a isso para sobreviver aqui?
Só que me adequar significaria o quê?
Parar de perguntar?
Fingir que eu não estava vendo?
Aceitar desrespeito?
Deixar que decidissem qualquer coisa sobre mim e simplesmente concordar?
Até onde a gente precisa se adaptar a um lugar sem começar a desaparecer dentro dele?
Eu não tenho todas essas respostas.
O que eu sei é que aquela confirmação me desmontou.
Porque é muito triste amar o que você faz e começar a perceber que existem pessoas trabalhando para que você não esteja mais ali. E é ainda mais doloroso quando você começa a sentir que o problema não é a qualidade do seu trabalho, mas justamente o fato de você não permitir que façam qualquer coisa com você.
Eu fui ficando desnorteada.
Porque já não era somente sobre perder uma cadeira.
Era sobre pertencimento. Sobre identidade. Sobre tudo aquilo que eu tinha construído profissionalmente. E, principalmente, sobre começar a duvidar de características minhas que, até então, eu acreditava que faziam de mim uma boa profissional e uma boa líder.
Durante algum tempo, eu realmente me perguntei se deveria ter sido diferente.
Hoje, a pergunta que fica é outra:
quanto de nós mesmos precisamos entregar para caber em um lugar que só parece ter espaço para nós quando deixamos de questioná-lo?
Sua vez
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