Olhando para mim
Jaqueline · 04 de setembro de 2026 · 3 min de leitura
Me chamo Jaqueline, tenho 49 anos, sou casada há 24 anos, tenho dois filhos autistas, Isaac de 21 anos e Lucas de 14 anos.
Essa descoberta de filhos autistas não aconteceu quando eles eram pequenos, mas começamos a investigar porque nosso filho mais novo começou a ter alguns comportamentos que vamos dizer não eram saudáveis.
Durante essa investigação tivemos muitas lutas e desafios, teve da parte dele um tentativa de suicídio, se auto lesionar entre outras coisas.
Diante disso tudo comecei a me anular e viver exclusivamente em prol dele, me apagando como mulher, esposa, amiga, filha. Quando algo assim em nossa vida acontece a primeira coisa que fazemos é esquecer de nós mesmo e viver em virtude do outro. Vivi assim durante um bom tempo, até que um dia fazendo terapia o psicólogo me perguntou quem eu era além dos meus filhos e obrigações familiares e eu não soube responder. Mediante a isso ele começou a trabalhar comigo a importância de me ver além de ser mãe com filhos neurodivergentes que precisam de apoio.
Não foi fácil me descobrir, não está sendo pq ainda continuo me descobrindo, mas o ponto da virada foi em uma sessão quando ele pediu para me imaginar em um futuro sem meus filhos, pq eles são capazes de sobreviver sem mim, casar, trabalhar, ter uma vida normal. Quando parei para imaginar eu me desesperei pq não conseguia ver o que poderia ser além dessa pessoa que estava vivendo em prol dos filhos. Chorei horrores pq me perdi, me negligenciei e me anulei.
Depois desse dia comecei a procurar a Jaqueline que sabia sorrir, sabia conversar e se alegrar, comecei a me ver como pessoa e não um personagem MÃE.
Foi quando comecei a sair, comecei a buscar Hobbes próprios, comecei a enxergar que não sou detentora de toda verdade e não sou uma super mulher, que posso dividir o fardo com meu esposo, que por sinal não estava podendo exercer seu papel de pai e principalmente me vi, me enxerguei novamente e comecei a gostar muito da mulher que estava descobrindo novamente.
Comecei a estudar, depois de um tempo comecei a fazer o curso de psicanálise e tem sido um acrescentar na minha vida muito grande.
Quero terminar dizendo que problemas sempre vamos ter, mas o que nunca podemos esquecer quem somos e o que somos capazes de realizar e que não podemos nos isolar e achar que damos conta de tudo, pq não damos e precisamos de ajuda seja de um profissional, seja da nossa mãe, de um amigo chegado o que for preciso.
Que sempre venhamos a olhar para nós com olhos bondosos e compassivos e sem cobrança nenhuma.
Sua vez
Se esta história tocou alguma coisa em você, talvez seja o começo da sua.